Cultura, Morte e Nascimento

O inicio... Tudo no inicio possui um aspecto ambivalente, e por isso é mais difícil de compreendê-la, chegando a ser até penoso, por que não assim dizer!

Todavia, o início é descoberta, pois como foi você o primeiro, ou seja, o que deu início, tudo é novo e estimulante, impregnado do doce cheiro daquilo que é “novo”, e por ser o novo, lhe confere estatus de iniciação e, inversamente pode ser sentido como aquilo que passou, findou, acabou, morreu, tudo a partir do inicio, ou seja, toda iniciação tem um simbolismo tanto de começo quanto de fim, pois “uma representação não se produz sem agir sobre o corpo e o espírito” (DURKHEIM, 1970:26).

Podemos observar este binômio – inicio/fim, nascimento/morte – em quase todos os aspectos da vida de forma análoga, através dos rituais que a sociedade cultivou e cultiva até os dias atuais através da cultura.

Dizemos a respeito da cultura, pois toda práxis social impregna em um arcabouço de experiências que levamos para toda a vida, uma espécie de “lente” entre o individuo e o mundo, porém estas lentes são sentidas e percebidas de maneira idiossincrática por cada indivíduo por estar exatamente imerso em seu contexto cultural, mas, todavia, podemos observar em sua gênese, que todas possuem o mesmo princípio de nascimento e morte.

Pois, toda iniciação é de fato, uma espécie de passagem para uma nova vida, pois “a história da vida (...) pode ser compreendida como a história da transformação da função do sistema de produção dos bens simbólicas” (BOURDIEU, 1972:49), seja ela em qual período for, arcaica ou moderna (Ku Klux Klan, Maçonaria), os ritos de passagem representam verdadeiros símbolos representativos da morte e nascimento, que traduz e descortina toda epistemologia da vida.

Gostaríamos de tomar algumas culturas como exemplo, até mesmo para que fique mais compreensiva nossa proposta reflexiva.

Nos Camarões, o rapaz tem que atravessar um corredor subterrâneo onde o espreitam máscaras apavorantes (os mortos). Entre os selknam da Terra do Fogo, depois de separarem das mães com um sofrimento intenso, as crianças têm que, numa luta contra homens representando os espíritos (os mortos), encontram aí uma morte simbólica, desta morte vai, enfim, poder nascer uma vida adulta. Algumas sociedades arcaicas, os ritos de passagem são marcados por torturas como: circuncisão, subincisão, dentes arrancados etc. (Vale lembrar que, dente arrancado, nos sonhos, é símbolo tanto de nascimento quanto morte).

Vale destacar também, os casamentos, outro grande ritual de passagem que a nossa cultura contemporânea cultiva como principio legitimadora, porque são verdadeiros símbolos de morte/nascimento, pois quando o casal se une simbolicamente perante uma instituição religiosa (Deus) e perante toda uma sociedade que está presente como testemunha, eles deixam toda uma vida pra trás (a morte), para um novo e feliz recomeço juntos (o nascimento), em direção à nova vida através da morte. Poderíamos citar inúmeras outras tantas experiências de passagem como: a primeira menstruação, o primeiro ato sexual, o nascimento de um filho, o batismo, a cerimônia fúnebre, etc. Todos possuem em si, o signo fecundo de morte/nascimento.

Toda esta dialética (morte/nascimento), enquanto passagem torna-se assim uma iniciação e, como toda prática, as cerimônias fúnebres, por exemplo, visa ao morto iniciar para a vida póstuma, a fim de garantir-lhe a passagem, seja ela para o novo nascimento na eternidade.

As igrejas em si retomam o binômio dialético a todo instante, pois são os lugares próprios de morte e nascimento, sendo ela análoga ao útero num ventre como o batismo (nascimento) ou como uma catacumba obscura como as missas de sétimo dia (morte) dos primeiros cristãos, ou seja, “a catedral encerra as trevas da germinação da morte” (MORIN, 1997:124).

Neste contexto eclesiástico de passagem (morte/nascimento) também pode estar associado à purificação, pois a toma emprestada, sendo a purificação o que lava as máculas mortais que a vida acumula, fazendo penetrar assim no campo do sagrado.

Todo ritual sagrado seja em qual período for, começa com uma purificação sacramental, que possui a água como renascimento e vida, incomparável nos mitos quanto nas religiões “da qual a imersão na água é o mais conhecido”, isto é, o batismo.

Neste banho, não é só a virtude intrínseca da água – saciar a sede e fertilizar o solo - que esta em jogo, mas sim, a passagem da morte para a vida. Então, o homem que se banhou nas águas santas não é o mais o mesmo, agora eis um novo homem diante da sociedade!

É decerto, importante lembrar que, João Batista, estava com metade do corpo nas águas do rio Jordão e, por que não citar os milagres da gruta de Lourdes, são todos os exemplos de que a água é a comunicação mágica do homem com o cosmos.

A água torna-se assim a grande comunicadora entre o homem e a morte, pois possui um suporte material da morte, é que a vida uterina, embrionária é de origem aquática, análoga à vida obscura dos peixes cavernícolas.

De fato valermo-nos também que, o mar carrega consigo a grande harmonia, a grande reconciliação com a morte, sendo ela a natureza primeira, ou seja, a mãe cósmica (da água é que surge a vida) análoga à mãe real, pois ao fazê-la a semelhança ao mar e, o mar a mãe, é a vida uterina que leva consigo a experiência dos seres vivos, amamentando-o no seio da mãe comum, dando-lhe a vida.

Assim sendo, como o mar remete à mãe, a mãe remete ao mar e, por sua vez, a morte remete a mãe e ao mar, isto é, a analogia se faz legítima, do nascimento e morte.

Por isso, o homem se emocione até o hoje ao ver o mar, pois lhe fala língua de sua origem e, talvez reconheça de maneira difusa, por que não dizer, uma lembrança vaga de uma vida uterina sentindo assim uma reminiscência dessa mesma vida.

Portanto, podemos concluir que, esta troca simbólica do homem com o binômio (morte/nascimento) se faz perene como um ato de sobrevivência e auto-afirmação no mundo, uma busca por compreensão do ser, que utiliza mecanismos para legitimá-lo em sociedade afim, de garantir o seu espaço na troca simbólica tanto com os vivos quanto com o imaginário.

Esta dialética não só estabelece um dialogo com o individuo como molda os seus pensamentos, seus atos, sua maneira de se ver e ver o mundo que o norteia, criando verdadeiras práxis sociais.

Notas:

Aguiomar Rodrigues Bruno

Graduando do sétimo período de História no Centro Universitário Geraldo Di Biase (UGB), Volta Redonda, estado do Rio de Janeiro.

Bibliografia:

BOURDIEU, Pierre. O mercado dos bens simbólicos. São Paulo: Perspectiva, 1972.

DURKHEIM, Émile. Sociedade e filosofia. São Paulo: Forense, 1970.

MORIN, Edgar. O homem e a morte. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

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